As coisas verdadeiramente importantes
- madalena almeida

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Há coisas que, para mim, são verdadeiramente importantes na vida.
O meu trabalho, por exemplo.
Não apenas aquilo que faço todos os dias, mas aquilo que gostaria que pudesse deixar no mundo: contribuir, de alguma forma, para a evolução da humanidade e para uma maior consciência sobre a nossa responsabilidade em manter este planeta vivo.
E depois há coisas tão simples que quase passam despercebidas: A água.
Tão fundamental que não consigo deitar fora o restinho que fica numa garrafa.
Se sobra um pouco, procuro sempre uma planta a quem o possa dar.
Pode parecer uma coisa insignificante.
Mas talvez seja precisamente aí que começa a nossa relação com o planeta: na forma como tratamos aquilo que parece pequeno demais para merecer a nossa atenção.
E depois existem as árvores.
Esses seres extraordinários que estão ali, silenciosamente, a fazer um trabalho absolutamente indispensável para todos nós.
Produzem oxigénio. Armazenam carbono. Regulam a temperatura. Protegem os solos. Acolhem inúmeras formas de vida.
E fazem tudo isto sem pedir nada em troca.
A maior parte das pessoas passa por elas sem sequer reparar.
Uma árvore torna-se parte da paisagem. Um elemento que está simplesmente ali.
Até ao dia em que alguém decide que aquela árvore “incomoda”.
Porque levanta o passeio.
Porque deixa folhas nas ruas.
Porque entope as caleiras.
Porque as raízes cresceram demasiado.
Porque suja o carro.
E, de repente, aquilo que levou décadas a crescer transforma-se num "problema" que precisa de ser eliminado.
Às vezes pergunto-me se perdemos a capacidade de reconhecer aquilo que é verdadeiramente valioso.
Somos capazes de atravessar um jardim inteiro sem olhar para uma árvore, mas incomodamo-nos imediatamente com uma folha que caiu no chão.
Preocupamo-nos tanto com aquilo que nos facilita a vida que esquecemos aquilo que torna possível a própria vida:
A água.
As árvores.
O solo.
O ar.
Os rios.
Os oceanos.
Todos esses sistemas silenciosos dos quais dependemos e que, precisamente por funcionarem silenciosamente, damos como garantidos.
Talvez uma das grandes mudanças de consciência de que precisamos seja esta:
voltar a reparar.
Reparar na água antes de a desperdiçar.
Reparar numa árvore antes de a cortar.
Reparar na vida que existe à nossa volta.
Perceber que não somos donos deste planeta.
Somos parte dele.
E talvez evoluir enquanto humanidade não seja apenas adquirir mais conhecimento, criar tecnologias mais avançadas ou conquistar coisas novas.
Talvez evoluir seja também aprender a cuidar melhor daquilo que já nos foi dado.
Por isso, quando tenho um pequeno resto de água numa garrafa e procuro uma planta para o deitar, não sinto que estou a fazer algo extraordinário.
É apenas a minha pequena forma de dizer: Eu reparei em ti.
E talvez seja disso que o planeta precise de nós.
Que voltemos a reparar.
Que voltemos a agradecer.
E, sobretudo, que voltemos a cuidar.





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