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A grande lagarta peluda

Parece que esta parábola tem, para as crianças, uma mensagem inconfundível. Quando se representa em directo, a lagarta duvidosa tem uma voz profunda e cansada. Pode até acontecer que você reconheça a lagarta, quando ler isto, pois muitas pessoas o fazem. É também uma das minhas favoritas.


O bosque regurgitava de vida e, debaixo do tapete de folhas que cobria o solo, a grande lagarta peluda falava ao seu grupo de lagartas discípulas. Não tinha mudado grande coisa na comunidade das lagartas. O trabalho da grande lagarta peluda era vigiar o grupo para que se conservassem e respeitassem os velhos costumes. Ao fim e ao cabo, eles eram sagrados.

Diz-se – falava a grande lagarta peluda, por entre mordidelas na sua comida de folhas – que há um espírito no bosque que oferece a todas as lagartas um novo contrato melhor.

Mnhãm, mnhãm... Decidi conhecer esse espírito e aconselhar-vos sobre o que vocês devem fazer.

- Onde é que vais encontrar o espírito? – perguntou uma das discípulas.

- Ele virá até mim – disse a grande lagarta peluda - Ao fim e ao cabo. Como sabem, não posso ir muito longe. Não há comida para além do arvoredo. Não posso ficar sem comida, mnhãm, mnhãm.

Assim, quando a grande lagarta ficou sozinha, chamou em voz alta o espírito do bosque, e, pouco depois, o grande e tranquilo espírito aproximou-se dela. O espírito do bosque era formoso, mas grande parte dele ficava escondido, posto que a lagarta não se movia do seu cómodo leito de folhas.

- Não posso ver bem a tua cara - disse a grande lagarta.

- Vem um pouco mais para cima - respondeu o espírito do bosque com voz amável. Estou aqui para que me vejas.

Mas a lagarta continuava onde estava. Afinal de contas, esta era a sua casa, e o espírito do bosque estava ali porque ela o tinha convidado.

- Não, obrigada – disse a grande lagarta peluda. Isso dá muito trabalho. Diz-me uma coisa: que é isso que andam por aí dizer sobre um grande milagre, só disponível para as lagartas, e não para as formigas nem para as centopeias? É mesmo só para lagartas?

- É verdade – disse o espírito do bosque. Vocês ganharam um presente maravilhoso. E, se decidirem que o querem, dir-vos-ei como consegui-lo.

- E como é que o ganhámos? – perguntou a grande lagarta peluda, ocupada com a sua terceira folha, desde o princípio da conversa - Não me lembro de ter concorrido a nenhum concurso.

- Ganharam através dos vossos incríveis esforços de toda a vida, ao fazerem com que o bosque continue a ser sagrado – disse o espírito.

- Pois claro! – exclamou a lagarta. Faço esse esforço todos os dias, todos os dias. Sou a líder do grupo, sabes? Por isso estás a falar comigo… e não com outra lagarta qualquer.

Ao ouvir este comentário, o espírito do bosque sorriu para a lagarta, embora esta não pudesse ver, posto que tinha decidido não abandonar a sua folha.

- De facto, desde há muito tempo que faço com que o bosque continue a ser sagrado – disse a lagarta.

E o que é que eu ganhei com isso?

- É um presente maravilhoso – respondeu o espírito do bosque. Agora és capaz, através do teu próprio esforço, de te converteres numa formosa criatura alada, e voar! As tuas cores serão impressionantes, e a tua mobilidade deixará boquiabertos todos quantos te vejam. Poderás voar para onde quiseres dentro do

bosque. Poderás encontrar comida em toda a parte, e conhecer novas e formosas criaturas aladas. Tudo isto imediatamente, se quiseres.

- Lagartas que voam?! – reflectiu a peluda – é incrível! Se é verdade, mostra-me algumas dessas lagartas voadoras. Sempre quero vê-las.

- É fácil – respondeu o espírito. Viaja simplesmente para um lugar mais elevado e olha à tua volta. Elas estão por todos os lados, saltando de ramo em ramo, e desfrutando de uma vida maravilhosa e abundante, ao Sol.

- Sol! – exclamou a lagarta. Se realmente és o espírito do bosque, sabes que o Sol é demasiado quente para nós, as lagartas. Coze-nos!... Sim, não é bom para o nosso pelo, sabes. Por isso, temos de estar na obscuridade. Não há nada pior que uma lagarta com o pelo feio.


- Quando te transformares na criatura alada, o Sol fará ressaltar a tua beleza – disse o espírito, amável e pacientemente. Os velhos métodos da tua existência mudarão radicalmente, deixarás os antigos hábitos de lagarta no solo do bosque e lançar-te-ás nas novas habilidades das criaturas aladas.

A lagarta ficou calada por um momento.

- Queres que deixe a minha cómoda cama e viaje para um sítio alto, ao Sol, para ter uma prova disso?

- Se necessitas de uma prova, é isso que deves fazer – respondeu o paciente espírito.

- Não - disse a lagarta – não posso fazer isso. Tenho de comer, sabes?.. Não posso ir para sítios desconhecidos debaixo de Sol, a comer moscas, enquanto houver aqui trabalho. É muito perigoso!... No entanto, se fosses realmente o espírito do bosque, saberias que os olhos das lagartas apontam para baixo, e não


para cima. O Grande Espírito da Terra deu-nos bons olhos que apontam para baixo, para podermos encontrar comida. Qualquer lagarta sabe isso. O que pedes, não serve para uma lagarta – disse a lagarta peluda, cada vez mais desconfiada. Olhar para cima, não é algo que façamos com frequência.


E, depois de uma pausa, acrescentou:

- E como é que conseguimos essa história voadora?

O espírito do bosque explicou então o processo de metamorfose. Explicou que a lagarta tinha de se comprometer a aceitar a mudança, uma vez que, começado o processo, não era possível voltar atrás.

Explicou como a lagarta usava a sua própria biologia enquanto se encontrava no casulo, para se converter numa criatura alada. Explicou também que a mudança requeria um sacrifício, um tempo de obscuridade silenciosa dentro do casulo, até que tudo estivesse pronto para a transformação numa formosa criatura

voadora, multicolor. A lagarta escutava em silêncio, sem interromper, excepto pelos ruídos da mastigação.

- Vamos a ver se entendi – disse irreverentemente a lagarta. Queres que todas nós nos ponhamos em marcha e tentemos ocupar-nos com uma coisa biológica, da qual nunca ouvimos falar? Quer dizer que temos que deixar que essa coisa biológica nos encerre totalmente no escuro durante meses?

- Sim. - respondeu o espírito do bosque, que percebia para onde se encaminhava a conversa.

- E tu, o Grande Espírito do bosque não podes fazer isso por nós, não é verdade? Temos que ser nós mesmas a passar pelo processo?... Pensei que o tínhamos ganho!

- Vocês ganharam-no – disse, tranquilo, o espírito – e, ao mesmo tempo, também ganharam o poder de se converterem na nova energia do bosque. Agora mesmo, enquanto estás sentada na tua folha, o teu próprio corpo já está equipado para fazer isso tudo.

- Que aconteceu aos dias em que a comida caía do céu, as águas se abriam, os muros das cidades se desmoronavam, e outras coisas do género? Não sou parva, sabes? Posso ser grande e peluda, mas já cá ando há algum tempo. Como o Espírito da Terra faz sempre a maior parte do trabalho, tudo o que temos

de fazer é seguir as instruções… De qualquer modo, se fizéssemos o que nos pedes, morreríamos de fome!

Toda a lagarta sabe que tem de estar a comer o tempo todo...mnhãm, mnhãm... para continuar viva. O teu novo e grande contrato, parece-me muito suspeito.


A lagarta pensou ainda um momento e rematou:

- Olha… desaparece!

E, ao dizer isto, virou-se para ver onde daria a próxima dentada.

O espírito do bosque foi-se embora em silêncio, tal como lhe fora pedido, enquanto ouvia a lagarta murmurar para si mesma:

- Lagartas que voam!... Mnhãm, mnhãm... O que mais virá?


No dia seguinte, a lagarta fez uma proclamação e reuniu as suas discípulas para uma conferência. Estava tudo em suspenso, enquanto a multidão escutava intensamente para averiguar o que é que a grande lagarta peluda tinha a dizer acerca do seu futuro.

- O espírito do bosque é maligno! – proclamou a lagarta às suas discípulas. Quer enganar-nos para nos levar a um sítio muito escuro, onde certamente morreremos. Quer que acreditemos que os nossos corpos

se converterão em lagartas voadoras e, para isso, tudo o que temos de fazer, é deixar de comer durante uns meses!

Uma grande gargalhada seguiu-se a esta observação.

- O senso comum e a história, mostram-nos como sempre funcionou o Grande espírito da Terra – continuou a lagarta. Nenhum bom espírito vos levará para um sítio escuro!... Nenhum bom espírito vos pedirá que façam algo – algo tão próprio de Deus – por vós mesmas. Tudo isto são truques do espírito maligno do

bosque.

A lagarta empertigou-se com a sua própria importância, pronta para o comentário seguinte:

- Ah! Mas eu estive com o maligno… e reconheci-o!


As outras lagartas aprovaram loucamente este comentário, e carregaram a grande lagarta peluda nas suas costas peludas, andando em círculos, ao mesmo tempo que lhe agradeciam por as ter salvo de uma morte certa.


Deixemos este festival de lagartas, e, com cuidado, vamos elevar-nos, através do bosque. À medida que a algazarra do solo se vai desvanecendo nos nossos ouvidos, subimos acima do tapete de folhas que encobre o solo do bosque, dos raios do Sol.

Afastamo-nos pouco a pouco da obscuridade das folhas, até à área reservada aos que podem voar. E, à medida que a algazarra das lagartas em celebração se afasta dos nossos ouvidos, experimentamos a grandeza das lagartas aladas.


Pousando de árvore em árvore, sob a Luz brilhante do Sol, encontramos uma multidão de lagartas voadoras, de cores gloriosas, chamadas borboletas, cada uma delas engalanada com o esplendor das cores do arco-íris… algumas delas velhas amigas da grande e escura lagarta peluda do solo, cada uma delas com um sorriso e alimento abundante, cada uma delas transformada, com o grande presente do espírito do bosque.

Kryon


extraido do Livro 4 de Kryon - As Parabolas de kRYON



 
 
 

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